quarta-feira, 16 de março de 2011

Para os japoneses e descendentes



Foto: Yinzhao Yang

Eu estudei em escola pública, quando elas eram a melhor opção. E sempre tinha um, dois ou mais descendentes de orientais em cada classe, todos os anos. Filhos de coreanos, chineses e, claro, japoneses. Era um treino, um bom treino para conviver com as diferenças. Esses ainda eram nisseis, uma primeira geração e muitas vezes serviam de tradutores para os próprios pais, donos de quitandas ou feirantes. Gente humilde mas muito exigente, que cobrava dedicação e resultado de seus filhos. Conclusão: os japas passaram a perna na gente, tiravam as notas máximas (e quando não, choravam), estudavam no Bandeirantes e passavam na USP. E a próxima geração veio bem-sucedida e meio abrasileirada. E fomos felizes.


Nos anos 80 e 90 houve uma certa debandada dessa geração, já aculturada, para a terra dos seus ancestrais. O país estava em ótima fase e precisava de mão-de-obra, e muita gente juntou uma grana com trabalho duro. Alguns pensavam em voltar um dia e ficaram mesmo por lá; outros não queriam retornar mas acabaram voltando. E aí vieram os sanseis, que gostavam de pagode e axé e eram meus amigos. E eu os amava como tal: tímidos, disciplinados (mas não tanto quanto foram seus pais), boa gente.


O Japão sempre esteve no meu imaginário e na minha lista de destinos favoritos. Antes dos últimos acontecimentos, estava no top do ranking dos “países que quero conhecer antes de morrer”. Casei em um templo budista e se hoje não assumo essa posição, sempre achei a cultura oriental misteriosa e fascinante, de uma razão muito profunda. É curioso como eles misturam o tradicional e o moderno com tanto refinamento. Que eles não se beijem na rua, que mulheres andem atrás de seus homens, que as gueixas tenham de nascer para servir. Que o karaokê seja uma das formas mais formidáveis de descontar toda a carga emocional de um dia pesado – e como eles devem entender de introversão.


E os filmes: Em O Império dos Sentidos, um dos mais lindos da história cinematográfica, o amor vai além dos limites, como é quando eles resolvem ser intensos. Nessa leva, Ninguém Pode Saber é um dos dramas que mais me tocaram e finalmente, mais recente, Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola, com seu olhar estrangeiro.


Eu queria descobrir o Japão. Tentar falar inglês e, de repente, encontrar uma velhinha, pedir informação e descobrir que ela só fala japonês – e responda com mímica ou nem responda. Escutar um heavy metal em japonês ou algo assim, provar da culinária local. Tókio, suas luzes, seu cenário de Blade Runner. De repente dar uma passadinha no interior, ver casas pequenas, o Monte Fuji.
Mangás, pornografia japonesa com suas lolitas atadas, mulheres lânguidas, outros estereótipos. Clichês e não clichês.


Mas guardar dinheiro pra viajar é difícil e demorado, De repente alguém fica doente na família e todo o resto fica pra depois. Ou gasta-se dinheiro com coisas que você pode ver, como um carro, cujo resultado é mais despesas e estresse. A gente acaba esquecendo que a vida passa rápido e que vale mais aquela recordação da paisagem linda na sua frente do que quinhentas prestações. E a vida continua passando.
Aí veio a bomba. A terrível notícia, eu quero dizer. Ainda tenho esperança em conhecer o Japão e sei que, se depender deles, a coisa acontece. Pode demorar, como aconteceu com os filhos dos quitandeiros da minha infância. Mas tudo se consegue quando se trabalha duro, e se a natureza, mãe de todos nós, permitir.


Li hoje que 50 homens estão sacrificando a própria vida, sob intenso risco radioativo, nas usinas do norte – para salvar um país inteiro. São os “50 de Fukushima”. Isso me emociona porque, sinceramente (e posso estar sendo injusta), não sei se o mesmo aconteceria aqui. Melhor pensar que sim.